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A estranha presença do outro

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São inegáveis as implicações e complicações do conceito do Outro ou do grande Outro, vastamente discutido por Lacan e seus seguidores. Esse Outro que não deixa de ser um outro, mas que vai além  dele. Outro, cujo perfil se assemelha ao do Super Eu, mas que não o é, pois por mais cruel que se pareça, é sempre “parceiro”do EU, dando-lhe sempre uma “mãozinha” nas dificuldades da vida, quando o gozo se exacerba e o ameaça destruir. Esse Outro que não é Deus, embora a Ele se“assemelhe” e em muitas ocasiões com Ele se confunda. Outro que marca o sujeito desde seu ingresso no mundo, sinalizando a profunda e eterna importância da cadeia de significantes na relação com o outro, o outro nosso de cada dia,afeito e, por que não dizer, escravo do Simbólico, refém do significado, mas tão profundamente fendido pela ação implacável do significante.

Quando o conceito do Outro seinstaura, o outro círculo do nó borromeano se agiganta, o Imaginário, sem oqual o simbólico inexiste; demonstrando a impossibilidade dessa concepção sem asua presença. Como se conceber o Outro sem a noção do Imaginário e do Simbólicoque lhe sustenta? 

O Outro existe e não existe ao mesmotempo. Existe enquanto presente no discurso do outro, parceiro e adversárionosso de cada dia. Existe enquanto lugar de um saber, marcando indelevelmenteos exuberantes discursos político-partidários, contundentes, inflamados, emnome do “povo” que de tão inexpressivo na concepção destes, deles se tornavítima, vituperado pelo sadomasoquismo estampado nessas relações.

O Outro existe em determinados gruposreligiosos onde os “sócios de Deus” vendem o céu e a terra e condenam àsprofundezas do inferno os “infiéis” que não se deixaram seduzir pelasvantajosas ofertas, cujos preços e condições se constituem verdadeiraspechinchas.

O Outro está presente nas relações amorosas, onde o “Príncipe encantado” não tarda a chegar, como bem interpretou Carlos Ely na sua canção “Cinderela” : “logo cedo ao amanhecer o amor virá afinal, como príncipe encantado e sapato de cristal…”. O Outro está presente aqui e ali, em todas as relações, muito embora, paradoxalmente inexista. Inexista posto que não é SER,a despeito de ser lugar. Lugar imaginário, concebido inconscientemente pelo sujeito, sujeito que não tem outra forma de ser, senão marcado pelo discurso do outro, “nomeado” pelo Outro. Sujeito  vituperado pelas relações, eternamente sinalizado pela falta, refém do seu desejo e por ele nomeado seu eterno defensor.

Josélio Souza

  1. Gedeão Bispo de Sousa Gedeão Bispo de Sousa

    Como sempre, sábia análise do ilustre Psicalista.

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