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Psicanálise no hospital: reflexões sobre a atuação do psicanalista.

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A clínica psicanalítica nos convoca a constantes pesquisas e desafios, o criador da psicanálise adverte que: precisamos reconhecer as imperfeições do conhecimento psicanalítico, desenvolver novos conhecimentos e modificar os procedimentos, toda vez que for possível substituir por algo melhor (FREUD, 1919, p.155). Fazia parte do desejo do criador da teoria, estendê-la para além dos limites do consultório, tendo em vista a vastidão do sofrimento psíquico pelo mundo, colocando-o como uma questão em saúde pública (FREUD, 1919, p.162). Lacan reitera tal advertência nos dizendo que a clínica precisa ser pensada frente ao horizonte da subjetividade de sua época (LACAN, 1953/1998, p.322).

A psicanalise ampliou seu campo de inserção, a aspiração freudiana se tornou real. Organizações das mais variadas especificidades, contratam psicanalistas,nascendo, com esta possibilidade, um novo campo de investigação e eminente necessidade de aprender sobre as especificidades da atuação em cada nova escuta e em cada inserção.

Surgido,a partir de tal ampliação, inúmeras questões: como escutar o sujeito inconsciente fora do consultório? A atuação se restringe ao ser individual? É possível uma prática analítica em um contexto institucional? Como lidar com uma demanda e tempo variáveis? Quem é o sujeito a ser ouvido pela psicanálise? Como a teoria psicanalítica pode contribuir como campo de reflexão neste contexto?

O psicanalista ao se inserir no hospital enfrenta inúmeros desafios. Para além do público adoecido que busca o serviço, adentra em uma instituição que advém de uma história, possui uma relação com a comunidade que a cerca e se estrutura como um local que acolhe o adoecimento do corpo e o real da morte. Lugar de sofrimento específico que atravessa a todos que a este local recorrem independente do papel que exercem: por vezes clientes, visitantes e/ou funcionários.

Ao tomar o hospital como local passível de uma leitura crítica atravessada pela psicanálise, o analista é convidado a pensar sobre o sofrimento por outro prisma. Sofrimento, este, que perpassa pelo simbolismo do lugar, pela complexidade das relações que são atravessadas pela castração primordial e incognoscível da morte.

Por outro lado, surge a necessidade de repensar o seu lugar e sua escuta. Enquanto profissional, faz parte do quadro de funcionários, participa das relações, não possui o espaço de afastamento do divã, precisa cumprir burocracias, “metas” e ouvir urgências com as mais variadas demandas.  É convocado a escutar desde a clientela adoecida, aos funcionários, os “chefes”, os acompanhantes e visitantes. É analista e se insere em uma instituição e não possui uma clientela especifica. Gerando então impasses: qual o lugar do analista? O que orienta sua escuta?

O lugar do analista advém de uma escuta ética do inconsciente. Inconsciente que aparece em qualquer lugar que exista linguagem, como nos diz Freud desde “O projeto” (1895). O que demonstra a complexidade da prática analítica, assim como sua amplitude. Inúmeros desafios são vivenciados na atuação do psicanalista na instituição hospitalar como: os lugares de inserção, a demanda,o tempo e as relações se entremeiam em uma dinâmica complexa, além dos atravessamentos possíveis à transferência.

O psicanalista no hospital atua a partir de vários lugares: faz parte de corpo de funcionários, dentro de uma hierarquia institucional, cumpre uma série de burocracias, se insere em várias equipes, participa de reuniões, projetos e comissões hospitalares. Opera em variados setores e equipes ao ter a eminência de ser chamado onde exista demanda, seja de quem for. Trabalha desde setores como de a urgência e emergência, quanto nas enfermarias adulto e infantil, nas UTI’S e na hemodiálise. Em síntese: quando não há alternativa, nem saída,grita-se: cadê o psicanalista?!

As inserções do psicanalista no hospital geral, possuem especificidades quanto: a demanda, o setting, o tempo, o pagamento, os públicos de atendimento e nos causa curiosidade quanto a questão do estabelecimento ou não da transferência e a possibilidade do ato analítico, frete a instabilidade da mesma.

 A demanda pode vir de qualquer lugar da instituição, no entanto, em sua lista de atividades, o psicanalista, possui o objetivo de atender os pacientes internados e acompanhantes. O público que busca o serviço hospitalar solicita algum tipo de tratamento orgânico, o sofrimento do corpo, “destinado à ruína e à dissolução” (FREUD, 1930, p.76-77), apesar da angústia, transcender o biológico, as demandas dos “clientes” são endereçadas ao médico e traduzidas no corpo.

O analista se insere como secundário na rotina institucional e no atendimento de urgências, por meio de solicitações da equipe, ou nas visitas de rotina nos setores e raramente por uma solicitação do paciente fisicamente adoecido ou familiar.

Quanto a rotina institucional com os pacientes, é convocado a realizar triagens, que consiste em avaliar os pacientes internados, que não solicitam seu atendimento,em um contato inicial o analista busca de algum sofrimento que raramente explicita uma demanda de análise. Em sua escuta por vezes é mediador de alguma possibilidade de diálogo, visando manter a condição humana frente ao sofrimento do sujeito.

Grande parte das escutas nas triagens, surgem demandas médicas. Então qual é a posição do analista frente a esta escuta? É humana. A nossa escuta é diferente dos demais membros da equipe, não escutamos o sujeito por partes, escutamos o inconsciente que o funda. Apresentamo-nos em uma posição de escuta que abre a possibilidade para o surgimento do sujeito, permitindo-o a se posicionar em seu adoecimento.

Freud (1930, p.67-72)nos fala que a decadência, ou adoecimento ou, em última instância, o mau funcionamento de nosso corpo é fonte de desamparo. O desamparo, é o estado inicial do humano, fazendo parte da estruturação do aparelho psíquico, remetendo assim, à ausência de defesas para lidar com uma angústia que nos invade, correlativo a dependência de um outro para sobreviver.

A marca do desamparo vivida no hospital remete à maracas anteriores, desmontando a dinâmica e a temporalidade do inconsciente, marcas pulsionais, mais ou menos ligadas, que aparecem nos atos de fala dos pacientes. A angustia do desamparo, o retorno ao infantil, em outras palavras o retorno aos lugares de mais conforto e energia psíquica. Os mecanismos de defesa arcaicos e originários do humano. A pulsão que retorna para o próprio eu em busca de se restabelecer, ao mesmo tempo que busca no outro um amparo.

É necessário que psicanalista articule teoria e prática para que se localize quanto as subjetividades humanas, as particularidades do espaço em que se insere e alógica de funcionamento dos sujeitos.Em um lugar onde o corpo é tratado e medicado por um outro, a sensação de pertencimento de si por vezes é abalada e esta escuta cuidadosa possibilita que o sujeito participe ativamente do seu tratamento.

O caminho percorrido nesta breve reflexão se dá a partir da necessidade de levantar questionamentos e reflexões sobre a atuação possível do psicanalista no hospital, assim como os desafios enfrentados e as especificidades de sua atuação que nos impulsiona a constantes investigações, que surgem a partir da seguinte conjectura: a  aposta de fazer psicanálise em qualquer lugar que exista linguagem, reconhecendo as especificidades e a realidade do campo de atuação.

A articulação entre teoria e clínica utilizando o recorte da prática nos faz levantar os de vários pontos de reflexão dentre eles: a possibilidade de lugar do analista; a relação com a equipe e com o público atendido; a especificidade do posicionamento ético que se dá a partir da escuta possível dos sujeitos, que em seu sofrimento realizam algum tipo de demanda ao analista e a necessidade do olhar reflexivo do profissional para instituição hospitalar como uma organização inserida na cultura e como um recorte desta estimulando uma leitura crítica. Pontos que nos instigam a continuar no caminho que o criador da psicanálise nos delegou pesquisar, investigar, estudar e articular teoria e prática.

Referências Bibliográficas

FREUD. (1919) De la historia de una neurosis infantil y otras obras. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1992.v. XVII.

______. (1895). Proyecto de psicologia. In: Publicaciones prepsicanaliticas e manuscritos inéditos em vida de Freud. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1992. v. I, p.339-446.

______. (1930) El malestar en la cultura. In: El porvenir de una ilusión, El malestar en la cultura y otras obras. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1992.v. XXI LACAN. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1998.

Letícia Santos Cerqueira

Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade.
Especialista em Teoria Psicanalítica: Prática Clínica e Institucional.
Especialista em Saúde Coletiva
Graduada em Psicologia

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